PROBLEMAS ESTRUTURAIS DE PORTO VELHO EXIGEM URGÊNCIA PARA SEREM COLOCADOS NAS AGENDAS DOS CANDIDATOS

Marcos Holanda Casagrande 17/07/2020 19:47:53 Artigos
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Foto divulgação


Por Elizeu Lira (*)

 

Há uma expressão no meio político que diz que “obra boa é aquela que aparece aos olhos dos eleitores”. Isto é, obra boa é aquela que se traduz em votos. Não creio ser esta a causa do nosso passivo em indicadores de saneamento básico, no Brasil e, muito em particular, no caso de Porto Velho, uma vez que as obras “não são vista” pelos cidadãos. Aqui, existem informações desencontradas que indicam que a cobertura de serviços de abastecimento de água e esgoto chega a três por cento. No entanto, há quem afirme que esta cobertura se limita aos condomínios residenciais de médio padrão para cima – e que nos demais domicílios ela não existe.

 

O não enfrentamento da ausência da rodoviária da cidade é a prova de que tenho razão. Geralmente obra suntuosa, as rodoviárias são edificações que saltam aos olhos das pessoas e têm bom potencial eleitoral. Este problema persiste e tangencia a agenda e os discursos dos candidatos ao cargo de prefeito de Porto Velho, eleição após eleição – resultando em constrangimentos aos cidadãos locais. “Qualquer cidade do interior tem rodoviária melhor e mais bonita”, dizem os que aqui moram.

 

Do mesmo modo seria o caso da construção de um entreposto de hortifrutigranjeiros que dotasse a cidade de um centro de abastecimento diário de produtos da agricultura família, da pequena produção agrícola e de todos os segmento produtivos do agro stadual, diversificadas, frescas, acessíveis e com enorme potencial econômico e de geração de renda.

 

Entretanto, há uma política que a sua ausência, mais agride a parcela da população mais pobre: um programa de renda mínima municipal, que atendesse aos excluídos estruturais da cidade, aqueles em que a pobreza está incorporada à sua história desde gerações.

 

Trago estes quatro elementos à reflexão para que, se ao menos debatidos nas próximas eleições municipais, será possível imaginar Porto Velho buscando encaminhar soluções para gargalos que impedem o seu desenvolvimento como cidade cosmopolita que quer ser. Mas, antecipo, dada a cultura política predominante entre os que almejam governar a cidade, não esperem que sejam eles os protagonistas deste processo. Ao contrário, este é um movimento que deve ser inserido nas agendas dos candidatos “de fora para dentro”, como demandas represadas durante muitos anos e que agora urge implementá-las. E justifico as suas urgentes necessidades.

 

A meu ver, a ausência de saneamento básico na cidade tem a ver com a omissão da elite econômica local, cujas condições sanitárias próprias conseguem administrar razoavelmente bem, com construções de poços e locais de destino de rejeitos adequados, em suas casas ou em aglomerados delas (conjuntos, condomínios, prédios). Isto é reforçado élo clima da cidade. Que não permite andar longos trechos a pé, em que o uso de carro com ar condicionado e portas fechadas (estas inclusive nos escritórios e consultórios), estas pessoas não são incomodadas pelo permanente mau cheiro que exalam das sarjetas e bueiros improvisados das suas ruas.

 

Embora carregue um pouco deste componente (afinal, rodoviária não é exatamente o local que a elite econômica gosta de frequentar), o desprezo dado à este importante equipamento público pelas sucessivas administrações municipais é resultado da passividade popular e da indiferença da Câmara de Vereadores – que não catalisa a demanda para si e a impõe na agenda da administração municipal. Uma cidade de mais de 500.000 habitantes e que é capital do estado, não merece conviver com algo tão... desastroso!

 

A ausência do entreposto de hortifrutigranjeiros na cidade ignora que a mesma é uma ilha cercada de lavouras e rios por todos os lados. Portanto, reúne condições para proporcionar grande dinamismo econômico ao setor, com a agregação de valor aos produtos e distribuição de renda em toda a cadeia, desde o micro produtor, até aos feirantes. Não creio que as grandes redes varejistas se incomodariam com a sua implementação, uma vez que suas feirinhas abarrotadas diariamente pouco serão afetadas.

 

Por fim, trato do programa de renda mínima municipal, política ousada, mas necessária. A pandemia do novo coronavírus demonstrou que a falta de renda é danosa para todos, mas com efeitos mais perversos sobre os mais pobres dos mais pobres. Não se espantem: ainda temos entre nós os “mais pobres dos mais pobres”. Numa cidade em que a renda está concentrada entre servidores públicos (das três esferas), empresários do comercio, serviços e indústrias, profissionais liberais e os trabalhadores empregados nestes setores, aqueles que não citei vivem à margem da economia, subsistindo de programas assistenciais esvaziados, clientelistas, de escassos e eventuais bicos, da ajuda de instituições religiosas, parentes e vizinhos. Desta forma. São presas fáceis para dois tipos de armadilhas, ambas igualmente danosas: o crime, organizado ou não e os políticos interesseiros de ocasião.       

 

Portanto, a inserção “de fora para dentro” dos quatro temas na agenda eleitoral deste ano é inadiável. Se isso não ocorrer, o problema do saneamento básico, a construção da rodoviária, a criação do centro de distribuição de hortifrutigranjeiros e o programa de renda mínima municipal ficarão para as calendas, mantendo a continuidade do atraso estrutural da cidade e proporcionando ao vencedor das eleições nenhum compromisso com o seu desenvolvimento e com o seu futuro.

 

 

(*) Elizeu Lira, 57 anos, sociólogo, especialista em políticas públicas e programas de desenvolvimento.



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