Fim do método Neymar

marcos holanda casagrande 07/07/2018 22:43:46
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Neymar sente uma pancada contra a Bélgica. FRANCISCO SECO (AP)




Os mosquitos, uma praga nesses contornos do Volga, saíram do pântano ao lado do estádio de Kazan atraídos por uma luz branca. Neymar Júnior os espantava como podia. Parecia prestes a chorar, picado e sozinho, no campo, de cócoras, instantes depois da eliminação do Brasil na Copa do Mundo Rússia 2018.


Nenhum companheiro de time foi consolá-lo. Ninguém pediu seu consolo. Os jogadores derrotados da última seleção sul-americana que permanecia no torneio se retiraram em silêncio arrasados por um golpe do qual não há como se recuperar profissionalmente. Pela idade, a maioria sabia que se desvaneciam as possibilidades de ganhar o troféu que diferencia os melhores em um país obcecado em ser a maior referência mundial do esporte. O emblema da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) reproduz isso como um lema nacional nas bandeiras que adornam o hotel da concentração da seleção em Sochi: Gigantes por Natureza.


Neymar quis viver todo o ano como se o futebol profissional o aborrecesse e reservasse a emoção e a energia mental para os duelos decisivos da Copa do Mundo. Ele se mostrava seguro de que, chegado o momento decisivo, imporia sua condição automática de herdeiro de Messi. Aos 26 anos, em Kazan talvez tenha descoberto que fazer isso significa dar um salto mental sobre uma barreira insuperável.


No final do drama, Tite, o técnico do Brasil, disse que fisicamente seu jogador de maior potencial estava em perfeitas condições para jogar as quartas de final. O corpo respondia, a mente, por outro lado, não.


“As pessoas já viram que Neymar voltou a sua plenitude”, disse Tite após o jogo. “Quando a mente pensa e o corpo responde em um drible e uma arrancada, isso quer dizer que que você está no auge. Neymar estava até acima do que eu imaginava. Nessa Copa ninguém fez esforços de alta intensidade tantas vezes em um jogo como Neymar contra a Bélgica”.


Tite construiu o Brasil como Emery construiu o PSG, para exaltação de seu jogador de mais desequilíbrio, atendendo a qualidades físicas e técnicas. Algo, entretanto, se quebrou na grande figura midiática do futebol. No dia fundamental. Dos nove chutes a gol dados pelo Brasil somente um foi do melhor jogador da equipe. Coutinho, que deu 30 passes a mais, chutou duas vezes entre as três traves e deu o passe do 2x1. Douglas Costa, que entrou faltando meia hora para o final, obrigou Courtois a fazer três defesas, deu a mesma quantidade de dribles que Neymar (3) e roubou o mesmo número de bolas (2).


“Não quero culpar ninguém”, disse Tite; “não quero falar de individualidades. Entendo o futebol como um contexto global. Acho que dominamos e criamos mais oportunidades: 27 chutes contra nove no total. A efetividade da Bélgica foi fazer gols com menos chances criadas”.


“De peito aberto”

“O futebol não é vôlei ou basquete”, continuou, “aqui você não soma pontos, procurando consolidar uma superioridade. Aqui se você está mais forte, mas atravessa um mau momento, está desequilibrado, você é atingido e perde. Aqui tivemos um goleiro iluminado. Para mim, quem fez a diferença essa noite foi Courtois”.


“Eu”, disse Tite, à beira das lágrimas, “vi o Brasil construir, construir e construir com o peso do 2 a 0. O normal é subir e descer. Nós criamos e criamos. Mantivemos o nível, a energia, a confiança. Mas as circunstâncias nos afastaram do gol. O aleatório foi duro demais com a gente! É a primeira partida oficial que perdemos. Às vezes a realidade não bate com o ideal. Isso foi como uma operação de peito aberto”.


Neymar demorou muito a assumir a responsabilidade com a equipe que colocaram sob seus cuidados. Durante longos minutos ficou desligado, apalpando o tornozelo esquerdo, com dor, trocando a atadura, pedindo ajuda aos fisioterapeutas e pedindo o VAR após se jogar na área fingindo ter sofrido pênalti.


Neymar abandonou o estádio em silêncio. Não tinha nada a dizer e não sabia o que diria diante da avalanche de perguntas inevitáveis. Quis fundar um novo método de ganhar Copas e Bolas de Ouro. Quis jogar seriamente uma partida a cada 20. Em Kazan descobriu o resultado.

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