De militância, participação e protagonismo – o MDB e a lógica partidária no Brasil

A crise que atinge o MDB, vista sob a minha ótica, abre a oportunidade para discorrer sobre uma disfunção que assola os partidos brasileiros em geral

marcos holanda casagrande 26/07/2018 21:11:58 Politica
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Foto: Produção




Por Elizeu Lira

Já tratei em vários textos das fragilidades no “modus operandi” de fazer política no estado de Rondônia, sempre a partir do ponto de vista do interesse coletivo e do viés republicano na condução da coisa pública. Nas minhas análises não desconsidero a existência de grupos de interesse no arranjo político ocasional, na distorção econômica entre candidatos e partidos, nas práticas duvidosas de obtenção de votos, na mistura danosa entre o público e o privado, dentre outros.


Nesse sentido, a crise que atinge o MDB, vista sob a minha ótica, abre a oportunidade para discorrer sobre uma disfunção que assola os partidos brasileiros em geral: a inexistência de participação da base, da militância, dos operadores da instituição. 


Embora não seja exclusividade do MDB, a não participação dos militantes partidários nas decisões mais relevantes na vida dessas instituições políticas é uma barreira a ser superada, especialmente para que se alcance a maturidade política necessária à consolidação da democracia que se busca. Não há renovação sem participação, sem espaços para protagonismos, mesmo que eventuais. As máquinas partidárias são engessadas não por suas práticas ou regras burocráticas, mas pela longevidade dos seus quadros dirigentes, insubstituíveis, modorrentos, avessos à mudanças e ao novo. Com o tempo, o conjunto dos dirigentes partidários tornam-se amigos confidentes, quase cúmplices, incapazes de produzir críticas às coisas mais óbvias que ocorrem na vida da instituição. O resultado dessa realidade é uma agenda partidária sem entusiasmo, pouco atraente e demasiadamente burocrática. A prova desse imobilismo partidário é o filtro que ocorre para o aceite de novas filiações. Qualquer novo filiado que apresente risco de “sacudir” a rotina partidária é, na prática, rejeitado.


As grandes decisões dos partidos ou são tomadas pela cúpula ou, no máximo, pelos “delegados”, em Convenções ordinárias, cujas pautas (ou Ordem do Dia) lhe são apresentadas pelos dirigentes e sobre as quais devem se posicionar – sem possibilidades de novas proposições. As opiniões dos militantes comuns são emitidas nos encontros partidários, quando o microfone é franqueado ao plenário, sempre nos minutos finais.  A manifestação para o mundo exterior só é feita pelos caciques, ou pelo porta-voz autorizado, em tom solene e milimetricamente ensaiado. Na maioria dos partidos brasileiros, a militância política é uma enfadonha e subserviente penitência.


Em resumo, a verdade é que a crise política interna pela qual passa o MDB de Rondônia leva à constatação de que o partido segue essa regra. É a agremiação com o maior número de prefeitos, vereadores e deputados eleitos, possui grandes nomes da política do estado, enorme base de filiados e simpatizantes, bem como possui, ainda, algum vínculo com a academia e instituições de classe. No entanto, diante do impasse vivido pelas suas duas maiores lideranças, poucos têm se manifestado entre as duas teses defendidas por elas. Na realidade, apenas três manifestações vieram a público até o momento – e, para variar, daqueles que integram a elite da organização partidária. Estas manifestações vieram dos deputados estaduais Lebrão, Jean de Oliveira e “Só Na Bença”, e do deputado federal Lúcio Mosquini. 


Fora isso, pelo que se sabe, não há opinião emitida por nenhum prefeito, nenhum vereador e nenhuma outra liderança do partido. A controvérsia que pode reduzir o partido ao tamanho da sua incapacidade de administrá-la parece ser o problema da cúpula e de quem a criou.  Isso se explica de quatro formas: 1) a prática partidária inibe manifestações fora da liturgia institucional; 2) os integrantes do partido não têm conhecimento suficiente para se posicionar sobre a crise; 3) indiferença em relação aos envolvidos na contenda ou aos resultados a serem produzidos ao final; e, 4) para os militantes, a manifestação em favor de um lado se constitui em agressão ao outro.


Seja como for, o tamanho do partido e o papel que ocupa no ambiente político do estado não permitem o silêncio e a quietude diante de crise de tal dimensão. Ao contrário, o saudável seria ouvirmos discursos intermináveis e incontáveis reuniões “apaga-incêndios” espalhados por todo o Estado – elementos ainda não presentes na rotina partidária.

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Por Elizeu Lira

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